Sí, eran molinos.

Santarém, 20 de setembro de 2009.

Republicanos do Sul,

Celebremos as revoluções, ainda que derrotadas, ainda que contraditórias.

Aqui cada um se agarra ao que pode no esforço de não perder todas as esperanças. Nossas utopias ainda nos fazem caminhar, mas cada dia acreditamos menos na possibilidade de alcançar o horizonte. É estar no lombo de Rocinante com o ceticismo tosco de Sancho. Sabemos que os moinhos são invencíveis, mesmo assim avançamos.




Cena do quotidiano

Quinta-feira, 20 de novembro, cerca de 22h, horário do Pará. O forró pode ser ouvido a duas quadras de distância; chegando perto, pode-se sentir o cheiro do churrasco. Algumas jovens mulheres entram e as portas são fechadas. Até o amanhecer ouve-se a algazarra da festa, mas os vizinhos não estranham, nem reclamam. Afinal, todo fim-de-semana a cena se repete.
De fato, não seria uma cena inusitada se o local em questão não fosse o Batalhão da Polícia Militar de Anapu/PA e se, horas antes de cada festinha, os policiais não fizessem uma coleta de "contribuições voluntárias" no pequeno comércio da cidadezinha. Cena do quotidiano no Oeste do Pará.

Anapu

Santarém, 19 de novembro de 2008.
Estou partindo amanhã cedo para Anapu, onde viveu e foi assassinada Dorothy Stang.
O mais triste é que, mesmo com toda a repercussão que a morte da missionária causou, a situação no Oeste do Pará não sofreu grande mudança. Dorothy foi uma vítima de renome, porém, antes e depois dela, tantas outras vítimas anônimas caíram e continuam caindo, morrendo em meio ao imenso silêncio no qual grassa a violência dos coronéis da Amazônia.

Na mesma região, o Poder Judiciário do Estado do Pará (e, não raro, a Justiça Federal), quotidianamente concede, com base em títulos grilados, reintegrações de posse de terras historicamente ocupadas por populações tradicionais e locais, legitimando as expulsões violentas e o assassinato de posseiros e assentados.

A história do Lote 55 da Gleba Bacajá é a história presente de muitos outros lotes na luta pela Reforma Agrária no norte do Brasil. Uma luta em que acumulamos derrotas sobre derrotas, mártires sobre mártires, sem que nada mude.

Sigo confiante!


Quando todos praguejavam contra o frio, eu fiz a cama na varanda. Do dia 22 de fevereiro, no Diário da Cratera Urbana.

O desafio do MST na Amazônia

Santarém/PA, 12 de novembro de 2008.

Tenho acompanhado, com distanciamento involuntário, a ofensiva contra o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra pelos setores mais reacionários da sociedade gaúcha e, também, a resistência que outros setores começam a esboçar.

Reações como o relatório fascista do Ministério Público do Rio Grande do Sul somente fazem evidenciar a extraordinária relevância do MST no momento histórico brasileiro, não apenas para a questão agrária, mas para a luta de classes em todos os seus fronts. No polarizado contexto político do Sul, a presença do Movimento é determinante para a identificação dos agentes e dos interesses em jogo. Já nestas terras do Norte, a importância do MST fica patente, não por sua atuação, mas, paradoxalmente, por sua ausência.

No Pará, o MST não conseguiu avançar além de alguns pólos, como Marabá (especialmente na histórica região de Carajás) e o entorno de Belém. Em regiões altamente conflituosas, como Altamira e o território da BR-163, o movimento não logrou, ainda, germinar. O mesmo pode-se dizer de todo o chamado Baixo Amazonas, onde se situa Santarém.

Como tenho dito desde a primeira carta, um dos traços mais marcantes do contexto da Amazônia é sua complexidade, dada pela existência de vários interesses divergentes que não se polarizam em torno de interesses de classe. Poucos agentes poderiam, nessas circunstâncias, orientar os diversos vetores, de forma a revelar o verdadeiro conflito por trás desse confuso emaranhado. A meu ver, apenas o governo ou um grande movimento social teriam condições para tanto.

O governo precisaria ter uma concepção de Estado como instrumento de transformação social (tal qual ocorre na Venezuela e na Bolívia) e intervir radicalmente em defesa de determinados interesses, enfrentando os setores mais poderosos da sociedade. Em suma, uma postura da qual o governo Lula ainda está muito distante, com sua conciliadora “política do possível”. De outra banda, somente um movimento social como o MST poderia articular diversos segmentos em torno de um projeto alternativo e encetar uma resistência ao avanço do projeto hegemônico, arquitetado e conduzido pelo grande capital.
Contudo, para desempenhar esse papel, se faz necessária a construção de um movimento consciente da realidade amazônica, prenhe do seu próprio contexto e não uma tentativa de adequar ao Norte a concepção nascida na conjuntura sulista. Embora partes de um mesmo processo histórico, as questões fundiárias de cada uma dessas regiões têm significados, dilemas e soluções distintas. Entender essa diferença é desafio posto ao MST para, de fato, tornar-se um movimento nacional.

Postal # 02


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Uma bela imagem (ao menos)



Não creio que Barack Hussein Obama será o portador de uma nova ordem mundial ou algo do gênero, porém a imagem de uma família negra tomando posse da Casa Branca é, no mínimo, emocionante. Finalmente, o sonho dos fundadores está nas mãos de um descendente dos verdadeiros fundadores da América: os trabalhadores africanos.

Rumo Norte

Santarém/PA, 29 de outubro de 2008.
Cheguei ao Oeste do Pará depois de uma jornada de aproximadamente 150 horas, passando por seis estados e inúmeros municípios brasileiros. A linha de ônibus Porto Alegre – Santarém (que, segundo a empresa responsável, é a maior do mundo) oportuniza ao viajante comprovar os enormes contrastes de um país continental.

Ao longo dos cerca de 5.200 quilômetros do trajeto, o mundo ao redor do ônibus vai se transformando. Do Paraná em diante, é possível perceber um cenário cada vez mais despovoado. As cidades, tão próximas no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, tornam-se distantes. Os carros de passeio vão rareando até desaparecerem; em algum tempo, somente pick-ups e caminhões na estrada.

Às margens da BR, a paisagem “moderna” do sul, aos poucos, dá lugar às enormes extensões de monoculturas de soja e cana-de-açúcar do Centro-Oeste. Mais ao norte, são as pastagens que dominam, avançando sobre a floresta amazônica, metro a metro, no processo de expansão das fronteiras agrícolas. Só nos últimos mil quilômetros, onde já não há asfalto, é que a mata de impõe no horizonte. Ainda assim, de tempos em tempos, áreas devastadas e fumaça de queimadas interrompem a soberania da selva amazônica.

Ao longo da BR-163 (Rodovia Cuiabá-Santarém), a infra-estrutura rodoviária vai diminuindo e, finalmente, acaba de todo. Da estrada resta uma trilha cortando a floresta, seccionada de quilômetro a quilômetro por rios que irrompem em imensos atoleiros. A partir da Serra do Cachimbo, na divisa entre Mato Grosso e Pará, são cerca de mil quilômetros sem asfalto. Em muitos pontos, sem absolutamente nada que se pareça com uma rodovia.

Descer para empurrar o ônibus não é uma tarefa estranha aos passageiros locais – ao menos aos que se aventuram a viajar durante os seis meses de chuva. Ter que desvirar o veículo após um tombamento em meio à Floresta Nacional do Tapajós surpreendeu até mesmo aos mais acostumados. Mas a jornada não se interrompe por bobagens. Ônibus em pé novamente, seguimos adiante, tentando escapar das chuvas.

No Oeste do Pará, pequenas cidades e povoados nascidos de garimpos, seringais ou projetos de colonização formam um Brasil clandestino, cuja realidade é inteiramente ignorada por todos. Outro mundo, outro tempo. Um povo estranho, vindo de tantas regiões e com tantos sotaques, morrendo no coração da floresta, é a linha de frente em uma guerra de interesses tão poderosos que podem reduzir à poeira toda a vastidão da Amazônia. Suas riquezas, suas belezas, suas gentes.

Após seis dias no obstinado rumo norte, o destino: Santarém, na confluência de dois dos maiores rios do mundo, nos espera com a temperatura mais baixa registrada no ano: 22º. É hora de acostumar-se ao front norte.