Santarém/PA, 12 de novembro de 2008.

Tenho acompanhado, com distanciamento involuntário, a ofensiva contra o
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra pelos setores mais reacionários da sociedade gaúcha e, também, a resistência que outros setores começam a esboçar.
Reações como o relatório fascista do
Ministério Público do Rio Grande do Sul somente fazem evidenciar a extraordinária relevância do MST no momento histórico brasileiro, não apenas para a questão agrária, mas para a luta de classes em todos os seus
fronts. No polarizado contexto político do Sul, a presença do Movimento é determinante para a identificação dos agentes e dos interesses em jogo. Já nestas terras do Norte, a importância do MST fica patente, não por sua atuação, mas, paradoxalmente, por sua
ausência.
No Pará, o MST não conseguiu avançar além de alguns pólos, como Marabá (especialmente na histórica região de Carajás) e o entorno de Belém. Em regiões altamente conflituosas, como
Altamira e o território da
BR-163, o movimento não logrou, ainda, germinar. O mesmo pode-se dizer de todo o chamado
Baixo Amazonas, onde se situa Santarém.
Como tenho dito desde a primeira carta, um dos traços mais marcantes do contexto da Amazônia é sua complexidade, dada pela existência de vários interesses divergentes que não se polarizam em torno de interesses de classe. Poucos agentes poderiam, nessas circunstâncias, orientar os diversos vetores, de forma a revelar o verdadeiro conflito por trás desse confuso emaranhado. A meu ver, apenas o
governo ou um
grande movimento social teriam condições para tanto.
O governo precisaria ter uma concepção de Estado como instrumento de transformação social (tal qual ocorre na Venezuela e na Bolívia) e intervir radicalmente em defesa de determinados interesses, enfrentando os setores mais poderosos da sociedade. Em suma, uma postura da qual o governo Lula ainda está muito distante, com sua conciliadora “
política do possível”. De outra banda, somente um movimento social como o MST poderia articular diversos segmentos em torno de um projeto alternativo e encetar uma resistência ao avanço do projeto hegemônico, arquitetado e conduzido pelo grande capital.
Contudo, para desempenhar esse papel, se faz necessária a construção de um movimento consciente da realidade amazônica, prenhe do seu próprio contexto e não uma tentativa de adequar ao Norte a concepção nascida na conjuntura sulista. Embora partes de um mesmo processo histórico, as questões fundiárias de cada uma dessas regiões têm significados, dilemas e soluções distintas. Entender essa diferença é desafio posto ao MST para, de fato, tornar-se um movimento nacional.